quinta-feira, 28 de junho de 2012

Palavras sem maquiagem*



Queria ter nesse momento o dom dos escritores, poetas, artistas...
Queria poder expressar com todas as minhas forças o sentimento que aprisiono em mim,
Queria, através da palavra, libertar meus demônios
Dividir minhas angústias, despir-me de todas as máscaras,
Queria encontrar nas palavras “o eu mesmo”.
Queria poder expor minhas mais profundas vergonhas,
Meus mais obscuros medos.
Queria me agarrar nas palavras como os crentes se agarram na fé.
Queria me libertar de mim mesmo.
Queria alcançar o vazio.
Queria ser mais forte, que as palavras me façam forte!
Queria ser mais disciplinado, atento, focado, reto, atencioso, generoso.
Queria que as palavras me tocassem, como o toque gentil do invisível.
Há algo dentro de mim, que só pode ser mudado através da palavra.
Palavra forte, palavra viva. Palavra que encanta, palavra que liberta.
A palavra tem o poder de libertar e de condenar. O silêncio já não é mais uma opção!
 Meus demônios grunhem incansavelmente. São rasteiros, sujos e sedutores.
Seus gritos se travestem de música. E música lúdica, música hipnótica.
Quando dou por mim, o som acabou, o grunhido sumiu, o coração parou.
As palavras sumiram? Eu sumi com as palavras?
Queria, ainda quero, compreender. 

Mea culpa. Mea maxima culpa.


(Palavras sem maquiagem no sentido de que o texto foi escrito no calor da emoção. Do rascunho à versão final sem nenhuma etapa.)

domingo, 22 de abril de 2012

Dub Poetry (Poesia Dub)


You ask: Why do you write
so much about blood, sweat & tears?
Don't you write about trees, flowers, birds, love?

Yes.

I write about trees -
trees with withered branches
& severed roots

I write about flowers -
flowers on graves

I write about birds - 
caged birds struggling 

I write about love - 
love for destruction 
of opression.

(Você pergunta: Por que você escreve
tanto sobre sangue, suor e lágrimas?
Você não escreve sobre árvores, flores,
pássaros, amor?

Sim.

Escrevo sobre árvores - 
árvores com ramos gastos
& raízes machucadas.

Escrevo sobre flores -
flores sobre sepulturas.

Escrevo sobre pássaros -
pássaros engaiolados lutando.

Escrevo sobre amor -
amor pela destruição
da opressão.)

Fonte: Poema de Oru Onuora. In: CARDOS, Marco Antonio (org). A MAGIA DO REGGAE. São Paulo: Marin Claret, 1997. p.95-96.

domingo, 15 de abril de 2012

Vícios e virtudes





A coisa mais difícil para um viciado é assumir: "cara, eu tenho um vício!". Talvez deva ter um lance de psicanálise pra explicar essa situação, mas isso não vem ao caso agora. Fato, que falar (escrever) nos ajuda a assumir esse "problema". Pois bem, "cara, eu tenho um vício! O poker é meu vício." 
Deve ser estranho para um jogador(a) (iniciante, amador[a], quem sabe profissional) ouvir essas duas palavras tão próximas POKER VÍCIO.

O Poker, joguinho danado, No-Limit Texas Hold'em. Depois que você aprende não quer saber de outro jogo com cartas. Bicho... é viciante! Baixei o programa PokerStars em meu PC, jogo diariamente com pessoas do mundo todo. Há um site ( http://www.everythingpoker.com ) patrocinado pelo PokerStars onde você pode encontrar vídeos, tutoriais, artigos, enfim... uma verdadeira "Tele Aula" sobre poker. Muita grana investida para fazer novos (as) jogadores (as). 

Nesses vídeos você pode ver os profissionais do poker falando que Eu-(você)-nós, posso-(pode)-podemos ficar rico(s), jogando poker. Em verdade, ocorreu de um jogador, que pela primeira vez entrou em um grande torneio de poker, ganhar alguns milhares de dólares (pra ser mais exato: $40 em $2,5 milhões)  o cara ficou conhecido como "Chris Moneymaker". Há torneios que pagam hoje milhares de dólares. Tentador não? 

Os vídeos e tutoriais treinam aqueles(as) que desejam ser bons jogadores(as). Ensinam regras, truques, magias, blefes, e o puta que pariu... para incentivar Eu-(você)-nós a tentarmos um dia ser profissionais, ou pelo menos, arriscar jogar  no PokerStars com dinheiro real. 

É um negócio lucrativo de fato, e acredito sim ser possível que uma pessoas com extrema dedicação e TEMPO transforme-se em profissional. Até aí tudo bem.

O problema é quando o TEMPO passa a ser mal administrado e o poker ganha mais espaço do que deveria.  Heis o mal do vício. Você quer muito ganhar, e vez ou outra ganha. Essa sensação de ganhar, mesmo que um dinheiro de mentirinha, é muito doce e prazerosa. Pena que dura pouco. Tão breve quanto um "fold rápido" no Zoom do PokerStars. Os dias vão passando e o projeto de jogador(a) vai ficando cada dia melhor com a experiência. Então entra o pensamento: "se eu parar agora, perco tudo o que investi. Se continuar me dedicando chego perto de ficar bom". E aí? O que fazer?

Deveras difícil essa decisão. Heis a minha. Tentarei ficar sem poker nessa semana que entra. Na próxima semana escrevo como foi. Vou parar de forma radical. De uma vez só. Espero que eu sobreviva. O primeiro passo será desinstalar o PokerStars do meu computador, bicho... isso dói como gilete na carne. Mas lá vamos nós. Estou me sentindo prejudicado pois ando sem TEMPO para tarefas por hora mais importantes. Se eu resistir a esse vício, quem sabe daqui há alguns anos eu retome a prática. Assim que eu tiver mais TEMPO para praticá-lo. Aos que estão nesse mundo, desejo a todos GOOD LOOK!

Ps.: A virtude do título, penso eu, talvez seja a TEMPERANÇA que, segundo os cristãos, "modera a atração dos prazeres, assegura o domínio da vontade sobre os instintos e proporciona o equilíbrio no uso dos bens criados".

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A Geografia dos Místicos e dos Doutores

Os místicos rezam. Os doutores pensam. 
Os místicos falam a Deus. Os doutores falam sobre Deus.
Os místicos contam estórias e os doutores ensinam doutrinas.
Os místicos vão para o mar alto. Os doutores ficam no porto seguro.
Os místicos desafiam as ondas perigosas. Os doutores querem livrar-se delas.
Os místicos pedem coragem para enfrentá-las. 
Os doutores pedem a continuidade do mar tranquilo.

(Boff, L.)

quarta-feira, 13 de julho de 2011

NÃO ENTRE EM PÂNICO!

... há um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante, cujas formas de vida, descendentes de pri-matas, são tão extraordinariamente primitivas que ainda acham que relógios digitais são uma grande ideia. 
Este planeta tem - ou melhor, tinha - o seguinte problema: a maioria de seus habitantes estava quase sempre infeliz. Foram sugeridas muitas soluções para esse problema, mas a maior parte delas dizia respeito basicamente à movimentação de pequenos pedaços de papel colorido com números impressos, o que é curioso, já que no geral não eram os tais pedaços de papel colorido que se sentiam infelizes.
E assim o problema continuava sem solução. muitas pessoas eram más, e a maioria delas era muito infeliz, mesmo as que tinham relógios digitais.
Um número cada vez maior de pessoas acreditava que havia sido um erro terrível da espécie descer das árvores. Algumas diziam que até mesmo subir na árvores tinha sido uma péssima ideia, e que ninguém jamais deveria ter saído do mar.
E, então, uma quinta-feira, quase dois mil anos depois que um homem foi pregado num pedaço de madeira por ter dito que seria ótimo se as pessoas fossem legais umas com as outras para variar, uma garota, sozinha numa pequena lanchonete em Rickmansworth, de repente compreendeu o que tinha dado errado todo esse tempo e finalmente descobriu como o mundo poderia se tornar um lugar bom e feliz. Desta vez estava tudo certo, ia funcionar, e ninguém teria que ser pregado em coisa nenhuma.
Infelizmente, porém, antes que ela pudesse telefonar para alguém e contar sua descoberta, aconteceu uma catástrofe terrível e idiota, e a ideia perdeu-se para todo o sempre.

(O guia do mochileiro das galáxias, Douglas Adams)


segunda-feira, 13 de junho de 2011

SONHO 15


Todos da casa estavam na sala, diante do televisor. Ao lado do aparelho, sentado em uma cadeira, de frente para as pessoas, estava eu. Ao que parece, podiam ver-me, se quisessem. Os olhares, no entanto, centravam-se no filme. Dali os via de uma maneira singular. Uma coreografia de olhares, expressões que se alternavam entre o riso leve e um ar de ligeira apreensão, entre a passividade e a euforia.

O tempo passava; não o transcorrer de um filme, mas de uma vida. E todos permaneciam ali. A VIDA ERA UM ESPETÁCULO DO QUAL EU SÓ PARTICIPAVA COMO ESPECTADOR; UM ESPECTADOR DE ESPECTADORES.

Levanto-me - já muito tempo passara -, sento-me no sofá, ao lado dos presentes, que não esboçam reação. TV ligado, todos olhando, eu olhando, mas não vejo o filme. Ouço a trilha musical, não as vozes.

A vida era um espetáculo carente de vozes. A despeito do espaço reduzido, a sala estava repleta; todos os familiares e alguns amigos. Eu não via o filme, via as pessoas, mas não sentia suas presenças.

A vida era um espetáculo imaterial. Um desconhecido entra na sala, olha para mim, ninguém desvia o olhar. Com um gesto, pede licença para sentar. Com a cabeça, concordo. Empurra-me um papel dobrado - nada há escrito -, oferece-me um como d'água, levanta-se e vai embora.
Sonhador: Professor universitário, 38 anos, solteiro.


In: GUIMARÃES, R. B. (org) Memória e imaginário urbano: geografia de Morpheus. Presidente Prudente: Azimute, 2006.