quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Universo simbólico

“Grandes mentes discutem idéias; mentes medianas discutem eventos; mentes pequenas discutem pessoas.” 
Eleanor Roosevelt


Muitas vezes citei essa frase, um professor me disse que era de Albert Einstein, como essa informação veio de uma autoridade nunca a questionei, até hoje. Lendo uns blogs por aí... descobri que o crédito da frase é da esposa do Mr. Roosevelt, mulher genial, com certeza a frente de seu tempo. Sugiro o filme, Tuskegee Airmen para aqueles que quiserem saber mais sobre a genialidade de Eleanor Roosevelt.

Em relação ao conteúdo da frase, acredito que também a interpretava erroneamente, pois concordava com ela. Filosoficamente dizendo, partindo de uma postura idealista, tanto os eventos como as pessoas, ou coisas, ou seja lá o que for, são ideias. O homem vive num mundo de ideias, constrói um universo simbólico para morar. Tudo o que apreendemos do mundo, o fazemos em forma de ideia, através da linguagem. A árvore que vejo, não é uma árvore apenas, é a ideia de árvore que construo em minha consciência, partindo da sensação de ver uma árvore. Dessa forma, ao invés de lidar com as próprias coisas o homem está, conversando constantemente consigo mesmo, através dos pensamentos em sua cabeça.

Pra finalizar, um pensamento vindo da cabeça de Epíteto: "O que pertuba e assusta o homem, não são as coisas, mas suas opiniões e fantasias sobre as coisas." 

Por isso eu digo, todas as mentes tratam de ideias, discutem ideias, sejam ideias de coisas, ideias de pessoas, ou ideias de outras ideias, alguns, acreditem, pensam pensamentos. Logo concluo: se todas as mentes discutem ideias, então, todos temos grandes mentes!

quarta-feira, 13 de outubro de 2010


De agora em diante, só pensarei. 
Não vou escrever uma linha,
Pois quando escrevo
Os outros entram no meu pensamento
e tem a pretensão de discutir
Minhas ideias.
O EGOÍSTA

Pensar é algo solitário, individual.
Escrever já o deixa de ser, 
Uma vez que as linhas 
Vão recebendo os pensamentos
em formas de palavras,
E as palavras, todas elas, ao nascerem
só tem um objetivo,
atingirem outros olhos.
O ALTRUÍSTA

quinta-feira, 16 de setembro de 2010


"Piernas.
Cerebro.
Contacto humano.
Cultura.
El prójimo a quien amar.
Ideales, moral, honestidad.
Dios.
És importante que desde pequeño aprenda bien como és todo."


(Quino)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

- O que aprendemos com uma pedra?
- O silêncio.
- O que aprendemos com o silêncio?
- A meditação.
- O que aprendemos com a meditação?
- Reflexão.
- O que aprendemos com a reflexão?
- Conhecimento.
- O que o conhecimento revela?
- A liberdade.
- Como alcançamos a liberdade?
- Através de Deus.
- Quem é Deus?
- Não se pergunta algo cuja resposta é impossível de ser dita.
- Qual a pergunta certa?
- Como sentir Deus?
- Como?
- Há muitos caminhos. Experimente começar pelo silêncio.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Entre rãs e suas vãs filosofias...

Num lugar não muito longe daqui havia um poço fundo e escuro onde, desde tempos imemoriais, uma sociedade de rãs se estabelecera. Tão fundo era o poço que nenhuma delas jamais havia visitado o mundo de fora. Estavam convencidas que o universo era do tamanho do seu buraco. Havia sobejas evidências científicas para corroborar esta teoria e somente um louco, privado dos sentidos e da razão, afirmaria o contrário. Aconteceu, entretanto, que um pintassilgo que voava por ali viu o poço, ficou curioso, e resolveu investigar suas profundezas. Qual não foi sua surpresa ao descobrir as rãs! Mais perplexas ficaram estas, pois aquelas estranha criatura de penas colocava em questão todas as verdades já secularmente sedimentadas e comprovadas em sua sociedade. O pintassilgo morreu de dó. Como é que as rãs podiam viver presas em tal poço, sem ao menos a esperança de poder sair? Claro que a ideia de sair era absurda para os batráquios, pois se o seu buraco era o universo, não poderia haver um “lá fora”. E o pintassilgo se pôs a cantar furiosamente. Trinou a brisa suave, os campos verdes, as árvores copadas, os riachos cristalinos, borboletas, flores, nuvens, estrelas... o que pôs em polvorosa a sociedade das rãs, que se dividiram. Algumas acreditaram e começaram a imaginar como seria lá fora. Ficaram mais alegres e até mesmo mais bonitas. Coaxaram canções novas. As outras fecharam a cara. Afirmações não confirmadas pela experiência não deveriam ser merecedoras de crédito, elas alegavam. O pintassilgo tinha de estar dizendo coisas sem sentido e mentiras. E se puseram a fazer a crítica filosófica, sociológica e psicológica do seu discurso. A serviço de quem estaria ele? Das classes dominantes? Das classes dominadas? Seu canto seria uma espécie de narcótico? O passarinho seria um louco? Um enganador? Quem sabe ele não passaria de uma alucinação coletiva? Dúvidas não havia de que o tal canto havia criado muitos problemas. Tanto as rãs-dominantes quanto as rãs-dominadas (que secretamente preparavam uma revolução) não gostaram das ideias que o canto do pintassilgo estava colocando na cabeça do povão. Por ocasião da próxima visita o pintassilgo foi preso, acusado de enganador do povo, morto, empalhado e as demais rãs proibidas, para sempre, de coaxar as canções que ele lhes ensinara... 
(RUBEM ALVES. O que é religião. 1981, p.73-73)

Onde está a alma?

Clássica a passagem em que o cientista abre um corpo e pergunta, cadê a alma? Ora, pois, a alma não está ali. Onde está a alma? É mera criação humana, conceito, abstração. 

A alma, para dar uma definição, é a sede espiritual do homem, não é algo físico. As ciências naturais assumiram como dogma, critério, pressuposto o materialismo, é nesse pilar filosófico que a ciência se assenta hoje. A realidade se explica por aquilo que é sensível, concreto, a ciência se faz pela observação do mundo material. A matéria e a realidade se identificam. E não há nada além disso. As paixões, os sentimentos, as crenças se explicam, nesse viés, por forças do inconsciente, por causas sociais, lutas de classe, por interesses sociais, econômicos e políticos. Não há moralidade; apenas leis e interesses, não há Deus; apenas a ciência e o dinheiro. 

Nossa situação, hoje, está permeada por essa mesma condição filosófica, onde os homens perderam a razão de si, de ser “ser humano”, não sabem o que é saber, pensar, admirar e amar. Não se lê obras de conteúdo, que trazem em si a grande história da humanidade, não se lê Shakespeare pra entender o drama humano, hoje se optam por leituras vazias, que em nada acrescentam. Vivemos um vazio, a perda de referência, a solidão total, a angústia. Talvez isso explique o grande consumo de drogas no ocidente, sexo enlouquecido, matrimônios que duram cinco minutos, uma televisão que emburrece e aturde constantemente. Uma política que nunca ninguém tem tempo, nunca para pra se refletir, não se pensa, apenas se age por impulso, pois nunca há tempo. Isso é manipulação pura! Ou desespero em ultima instância... 

Todo esforço intelectual é voltado para o crescimento econômico, para subir na vida, para possuir coisas, para comprar, para ter, isso é ser melhor que o outro, é preciso competir! A lógica econômica nos possuiu de tal forma, que hoje vemos nossas escolas mudando seu papel, passando da educação para a capacitação técnica. Ao invés de formarmos mentes pensantes, fabricaremos mais mão-de-obra especializada, mais massa para construção de uma sociedade que não conhece a si mesma, que faz sem se perguntar o porquê, que age por impulso, e a cada novo passo, se aproxima do mundo material, e se afasta do mundo da família, dos amigos, dos sentimentos duradouros, talvez nesse mundo que foi enterrado no deserto de coisas, desejos, status, grifes... talvez embaixo de tudo isso, esteja nossa alma, perdida, esquecida, esperando para nos dizer quem nós realmente somos.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Nascer, morrer, essas coisas...

(Davi, olha o que te espera filhão)

Nascer é, sem dúvida, a segunda maior roubada que um ser humano tem que encarar na vida. Olha só: você ta lá no quentinho, boiando, o maior sossego. Não faz absolutamente nada – e, como nem sabe que existem coisas a serem feitas, não sente nenhuma culpa. Tem uma mangueira ligada na barriga, tipo, uma bomba de gasolina, que leva sangue de sua mãe com oxigênio, vitaminas e nutrientes direto pro seu corpo. Você não tem nem que respirar! É o cúmulo da folga.

Nos últimos meses da gestação você ouve. Se a sua mãe escuta música, é o paraíso: piscina aquecida, comida de graça e som ambiente. Huuum, interessante. O coração da mãe faz um barulho ininterrupto, tum, tum, tum, tum. Monótono, mas reconfortante. Você dorme, acorda, percebe que o tamborzinho tá lá, no mesmo ritmo e vai dormir de novo, tranqüilo, sabendo que tudo continua como antes.

Mas eis que de repente, não mais que de repente, epa!, tem algo estranho acontecendo. Destamparam o ralo da piscina? A bolha furou? As paredes vão se fechando, algo o empurra. Você não tem a menor ideia do que seja, mas boa coisa não parece.

Dito e feito: a passagem é estreita, quase o sufoco. Você sai vivo do outro lado (existe um outro lado!), aí bate uma baita luz na tua cara, um frio do diabo e pronto, quando você vai ver – e ver dói, arde o olho – tá ali, todo melecado e pelado no meio de desconhecidos. A cultura ainda não lhe deu as ferramentas para entender lhufas, mas a natureza já o brindou com os instintos e a primeira sensação da vida deve ser um medo profundo. Que roubada você pensa. Ou melhor, sente.

Programão, hein? Mas quando tudo parece perdido e você começa a sentir um negócio que, mais para a frente, seria formulado como “onde é que eu fui amarrar o meu burro?!”, algo de bom finalmente acontece: botam você num colo. Colo é uma coisa quentinha, cheirosa, um lugar realmente bom de estar. (Deus deve ter ganho algum prêmio de design pela criação do colo.) você vai se acalmando e quando já está pensando “bem, não posso reclamar”, acontece outra coisa maravilhosa: você se vê diante de um peito. (Se Deus não ganhou um prêmio de design com o colo, ganhou com o peito: melhor conceito, melhor embalagem de alimentos e melhor projeto, em todas as categorias.) e colocam o peito na sua boca. E você chupa, e vem leite, doce, quente. Ah, mangueira na barriga o escambau! Comer pela boca é muito melhor. Você dá um arroto, se ajeita ali no colo e dali em diante, começa a encarar essa coisa chamada vida, com ursinhos de pelúcia, bicicletas, vestibulares, amor, tédio e outros ingredientes mais ou menos importantes.

Pelo menos até o dia, ninguém sabe quando, em que se deparar com a primeira maior roubada da vida de um ser humano. Só espero que, nessa gora, também exista um lado de lá, com colos, peitos, essas coisas.

Texto de Antônio Prata