sexta-feira, 8 de maio de 2020
7 anos depois - uma bacia.
Faz 7 anos que não escrevo no blog. Li muitas coisas nesse meio tempo. Uma delas foi o cativante "A Bacia das Almas", do cristão anarquista escritor criador de tretas na cabeça alheia, Paulo Brabo. Obrigado por compartilhar suas reflexões!
Esse é meu primeiro post nessa retomada do projeto: "voltar a escrever sem compromisso coisas que eu penso aleatoriamente". O destino me mandou até seus olhos para lhe dizer "-- vai até o https://www.baciadasalmas.com/ e leia os textos do Paulo Brabo".
Inspirado nele, que se inspirou no "maior dos menores" - Jorge Luis Borges, volto pra cá, sem saber direito o porque, talvez pra deixar um registro, pra daqui 7 anos voltar e observar minhas mudanças e contradições.
terça-feira, 5 de novembro de 2019
Sobre o por que eu estou não comendo carne
Não tem haver com cuidar do corpo, somente.
Não tem haver com bandeira política, somente.
Não tem haver com princípios religiosos, somente.
Pra mim foi assim.
Tem haver com disciplina, da mente.
Tem haver com autocontrole, da mente.
Tem haver com organização, da mente.
Tem haver com limpeza, da mente.
Está sendo assim.
Intuição.
Meditação.
Reflexão.
Transpiração.
Cada vez menos.
Pra ser.
Cada vez.
Mais.
domingo, 22 de setembro de 2019
O que aprendemos com um círculo?

Somos a consciência de
tudo.
Se o tempo é circular, a
eternidade não tem fim nem começo.
Como saberemos em que ponto do
círculo estamos? Se é eterno é circular, pois não haverá fim. E nunca houve um
começo. A eternidade é uma metáfora de Deus. Da consciência cósmica que penetra
todos os seres. As ondas de eternidade vibram transformando a energia em
densidade e a densidade em matéria. A matéria pode voltar a ser
eternidade. Tomando
consciência poderá transcender à matéria. A consciência é o vazio. O vazio criado
pela eliminação da densidade. O nada é vazio. A forma é vazia. O vazio é forma.
Consciência é pensar-não-pensar, é não-é, o ser ao mesmo tempo que o não ser.
Yin e Yang, não opostos, mas complementos do mesmo ser-não-ser do mesmo
vazio-nada forma-vazio vazio-forma. No vazio cabe a eternidade.
A eternidade é circular, não tem fim nem começo.
Somos todos eternos!
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Samsara
AnA:
como vencer o medo
das palavras?
cada escrita é um
parto.
Eu:
bem sei que é. e que dói.
talvez encará-las ajude.
AnA:
será que um dia pára de doer?
Eu:
se parasse, não faria outra coisa.
AnA:
pois é!
as vezes adivinho que não será assim pra sempre.
Eu:
que sua adivinhação seja o Amém dos anjos.
AnA:
é que desconfio,
como quem já tivesse atravessado, que é só o começo espinhoso, os primeiros
tombos até aprender a se equilibrar na bicicleta
depois é só não parar de pedalar
algumas vezes vem
como certeza, principalmente nas noites em que o sono não vem e as verdades
transfiguram luminosas
mas então, nas manhãs, é como se eu esquecesse todo o
sentido durante a noite
e preciso reaprender de novo
preciso sair do ciclo
Eu:
talvez seja essa a nossa samsara, o
fluxo incessante de renascimento através das palavras.
terça-feira, 10 de julho de 2012
NO
“Quando em teu colo deitei a cabeça, meu camarada,
a confissão que fiz eu reafirmo,
o que eu te disse e a céu
aberto
eu reafirmo: sei bem que sou
inquieto
e deixo os outros também
assim,
eu sei que minhas palavras são
armas
carregadas de perigo e de morte
(...)”
(Walt Whitman)
Começo
esse texto com as palavras do poeta, ensaísta e jornalista norte-americano Walt
Whitman, pois esse texto foi construído com a leitura dos jornais virtuais que
noticiaram sobre o andamento da Cúpula dos Povos. Além do mais, minhas palavras
também são “confissão” – “palavras são armas / carregadas de perigo e de morte”.
Estive
presente no Rio de Janeiro na semana que ocorreu a Rio +20 e a Cúpula dos Povos,
esse texto trata da minha experiência na Cúpula. Tenho interesse em refletir
sobre como as bases sociais articuladas politicamente foram tratadas na Cúpula
dos Povos, em contraste com o glamour vivido
pelos líderes mundiais que estavam na Rio +20.
A CÚPULA DOS POVOS: UMA VERDADE INCONVENIENTE
“Esse Brasil lindo
e trigueiro
É o meu Brasil Brasileiro
Terra de samba e pandeiro...”
(Aquarela do Brasil, João Gilberto)
É o meu Brasil Brasileiro
Terra de samba e pandeiro...”
(Aquarela do Brasil, João Gilberto)
A
Cúpula dos Povos foi inspirada no Fórum Global, também realizado no Rio de
Janeiro – conhecido mundialmente como “Rio 92” – realizado também no Aterro do
Flamengo. De acordo com informações da BBC (quem quiser saber os sites,
mande-me um e-mail que lhe envio artigo completo), para o ano de 2012, 15 mil
ativistas foram esperados para a cidade do Rio de Janeiro para participar da
Cúpula dos Povos. Essas pessoas ficaram em alojamentos distribuídos pela
cidade, entre eles o Sambódromo, escolas públicas e a Universidade Federal do
Rio de Janeiro.
Somente
no Sambódramo, cerca de 10 mil pessoas ficaram instaladas no decorrer dos dez
dias do evento. A entrada da imprensa no Sambódramo foi proibida. Em reportagem
exibida no portal “terra.com.br” encontramos o seguinte relato: “Não se pode
entrar, isso agora é propriedade privada”, explica Edson Souza, um voluntário
que diz cumprir ordens dos organizadores. “A comodidade é mínima e não há nada
para comer”, queixa-se Antonio Regivaldo, 32 anos, da União Popular por uma
Moradia. Na sequencia do texto do referido sítio virtual, encontramos o relato um
cacique Potiguara, dizendo que: “Está mal organizado. Deveriam nos dar café da
manhã, mas, como sempre, os que têm menos são esquecidos”.
A Cúpula dos
Povos foi realizada por iniciativa de 200 organizações ambientalistas e movimentos
sociais do mundo inteiro, para, principalmente, lutar contra o mercantilismo e
defender os bens comuns. O governo brasileiro foi seu maior financiador desse
evento, contribuindo com 5 milhões de dólares, aponta jornal “O Povo”.
Em
reportagem exibida no portal virtual G1, no dia 13 de junho de 2012, houve a
notícia de que cerca de 10 mil pessoas deveriam ficar instaladas no Sambódramo
do Centro do Rio de Janeiro, e nesse espaço haviam mais de 200 banheiros
químicos instalados. Pensemos como os
organizadores, 10.000 pessoas para utilizar 200 banheiros. Seriam 50 pessoas
por banheiro! Qual a higiene de um banheiro desses? Quantas vezes ele deveria
ser limpo para atender minimamente as pessoas? Houve preocupação com a
salubridade do espaço, houve preocupação com as seres humanos, e
principalmente, com a vida? (Não vou falar do meio ambiente.)
O
relato denúncia trazido pela reportagem do Estadão, traz as impressões de algumas
pessoas que ficaram alojadas no Sambódramo durante a Cúpula dos Povos:
As principais queixas daqueles que ficaram no Sambódromo
dizem respeito às péssimas condições de higiene do local e à comida, que estava
estragada e fez com que alguns passassem mal. “Nunca vi tanto desrespeito. Eles
trouxeram índios para virarem atração turística. Não tiveram a menor dignidade
ao tratar os povos tradicionais”, reclamou a educadora paulista Mirian
Orensztejn, que estava com a neta, a índia carajá Myralu Werreria Orensztejn,
de 3 anos.
A organização não se responsabiliza pela alimentação
comprada. “Alguns grupos receberam vale-refeição e uma lista de restaurantes
credenciados. Mas preferiram comprar em locais não recomendados”, disse
Alessandra Alli, coordenadora de alojamento da Cúpula dos Povos.
Estive presente no evento durante os
dias 16 a 21 de junho, também instalados no Sambódramo, e não recebi nenhuma
lista de restaurantes credenciados. Também não recebi vale-refeição (tickets) todos
os dias em que estive no Sambódramo. Esse fato nos leva as contas mais uma vez;
10 mil pessoas recebendo 24 reais de vale-refeição por dia, durante 10 dias,
temos um gasto total de R$ 2,4 milhões. No entanto, vale lembrar que nem todas
as pessoas ficaram os 10 dias no evento, portanto o gasto provavelmente foi
menor. Levando em consideração que o Governo Federal destinou 5 milhões de DÓLARES
fica a questão – porquê as pessoas não receberam tickets todos os dias? O que foi
feito com esses vales-refeição que não foram entregues? Quem são os líderes
responsáveis por repassar esse valor à população que estava alojada no
Sambódramo? A quem cabe repassar uma prestação de contas à população?
Como PENSAR NÃO É
PROIBIDO, me aventuro a dizer: talvez seja consenso entre aqueles que
acompanharam de perto esses dois eventos em 2012 que ambos foram a expressão do
Zeigst que vivemos. De um lado os poderosos líderes mundiais representando os
interesses de uma elite global – a Rio+20 foi a expressão de como as coisas
podem ser organizadas quanto o que está em jogo é a imagem do país.
Por outro lado,
temos a Cúpula dos Povos que demonstraram a força dos movimentos de base no
país e no mundo. As passeatas, reuniões, palestras, abriram espaço para o povo
gritar seu descontentamento por um modo de vida que prejudica o mundo e a
humanidade. Também podemos observar a fragmentação dos interesses populares,
muitos grupos erguendo diferentes bandeiras: anarquistas, feministas, movimento
sem terra, movimento sem teto, movimento indígena, movimento por moradia popular,
movimento quilombola, para citar alguns. (Não pretendo julgar se isso é bom ou
ruim.)
A
declaração final da Cúpula dos Povos na Rio+20 foi divulgada na internet (é só
perguntar ao Google) com o título: “Por Justiça Social e Ambiental em Defesa
dos Bens Comuns, Contra a Mercantilização da Vida”. No documento em questão,
encontramos um texto preocupado em atacar o atual mercado financeiro, a
sociedade de consumo e, principalmente a MERCANTILIZAÇÃO DA VIDA.
Interessante
notarmos que apesar das intenções, o que presenciei no Sambódramo foi totalmente
o oposto da luta contra a mercantilização da vida. Durante os dias da Cúpula
dos Povos, observamos pessoas passando fome no Sambódramo, pessoas dormindo em
jornais, tickets que simplesmente desapareceram.
Foi
fácil observar a política brasileira sendo reproduzida da maneira mais fria e
cruel. Se as pessoas participassem das barracas e palestras definidas pelo
líder de determinado grupo, elas ganhariam o direito à alimentação (tickets).
Se as pessoas não “obedecessem” seus líderes os vale-refeições não eram recebidos.
Uma troca desumana, desigual, injusta: o apoio popular pelo pão. Isso nos
lembra um pouco como as coisas que acontecem em macro escala, nível Brasil, se
reproduzem em micro escala, nível local (Sambódramo).
A
democracia, mais uma vez, foi esquecida de ser convidada para ambos os eventos.
Na Rio +20 o que imperou foi o interesse dos detentores do capital. Na Cúpula
dos Povos, apesar das boas intenções, nos parece que o discurso não conseguir
chegar as bases e se tornar algo real, preocupado com o ser humano e com a
valorização da vida.
Fica
desse breve texto a nossa posição crítica, inspiradas no celebre pensamento de
Bertold Brecht, de que Nada é Impossível de Mudar:
Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que
parece habitual.
Suplicamos expressamente:
Não aceiteis o que é de hábito
como coisa natural,
pois em tempo e desordem
sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de
mudar.
quinta-feira, 28 de junho de 2012
Palavras sem maquiagem*
Queria ter nesse momento o dom dos
escritores, poetas, artistas...
Queria poder expressar com todas as
minhas forças o sentimento que aprisiono em mim,
Queria, através da palavra, libertar
meus demônios
Dividir minhas angústias, despir-me
de todas as máscaras,
Queria encontrar nas palavras “o eu
mesmo”.
Queria poder expor minhas mais
profundas vergonhas,
Meus mais obscuros medos.
Queria me agarrar nas palavras como
os crentes se agarram na fé.
Queria me libertar de mim mesmo.
Queria alcançar o vazio.
Queria ser mais forte, que as
palavras me façam forte!
Queria ser mais disciplinado,
atento, focado, reto, atencioso, generoso.
Queria que as palavras me tocassem,
como o toque gentil do invisível.
Há algo dentro de mim, que só pode ser
mudado através da palavra.
Palavra forte, palavra viva. Palavra
que encanta, palavra que liberta.
A palavra tem o poder de libertar e
de condenar. O silêncio já não é mais uma opção!
Meus demônios grunhem
incansavelmente. São rasteiros, sujos e sedutores.
Seus gritos se travestem de música.
E música lúdica, música hipnótica.
Quando dou por mim, o som acabou, o
grunhido sumiu, o coração parou.
As palavras sumiram? Eu sumi com as
palavras?
Queria, ainda quero, compreender.
Mea culpa. Mea maxima culpa.
(Palavras sem maquiagem no sentido de que o texto foi escrito no calor da emoção. Do rascunho à versão final sem nenhuma etapa.)
domingo, 22 de abril de 2012
Dub Poetry (Poesia Dub)
You ask: Why do you write
so much about blood, sweat & tears?
Don't you write about trees, flowers, birds, love?
Yes.
I write about trees -
trees with withered branches
& severed roots
I write about flowers -
flowers on graves
I write about birds -
caged birds struggling
I write about love -
love for destruction
of opression.
(Você pergunta: Por que você escreve
tanto sobre sangue, suor e lágrimas?
Você não escreve sobre árvores, flores,
pássaros, amor?
Sim.
Escrevo sobre árvores -
árvores com ramos gastos
& raízes machucadas.
Escrevo sobre flores -
flores sobre sepulturas.
Escrevo sobre pássaros -
pássaros engaiolados lutando.
Escrevo sobre amor -
amor pela destruição
da opressão.)
Fonte: Poema de Oru Onuora. In: CARDOS, Marco Antonio (org). A MAGIA DO REGGAE. São Paulo: Marin Claret, 1997. p.95-96.
domingo, 15 de abril de 2012
Vícios e virtudes
A coisa mais difícil para um viciado é assumir: "cara, eu tenho um vício!". Talvez deva ter um lance de psicanálise pra explicar essa situação, mas isso não vem ao caso agora. Fato, que falar (escrever) nos ajuda a assumir esse "problema". Pois bem, "cara, eu tenho um vício! O poker é meu vício."
Deve ser estranho para um jogador(a) (iniciante, amador[a], quem sabe profissional) ouvir essas duas palavras tão próximas POKER VÍCIO.
O Poker, joguinho danado, No-Limit Texas Hold'em. Depois que você aprende não quer saber de outro jogo com cartas. Bicho... é viciante! Baixei o programa PokerStars em meu PC, jogo diariamente com pessoas do mundo todo. Há um site ( http://www.everythingpoker.com ) patrocinado pelo PokerStars onde você pode encontrar vídeos, tutoriais, artigos, enfim... uma verdadeira "Tele Aula" sobre poker. Muita grana investida para fazer novos (as) jogadores (as).
Nesses vídeos você pode ver os profissionais do poker falando que Eu-(você)-nós, posso-(pode)-podemos ficar rico(s), jogando poker. Em verdade, ocorreu de um jogador, que pela primeira vez entrou em um grande torneio de poker, ganhar alguns milhares de dólares (pra ser mais exato: $40 em $2,5 milhões) o cara ficou conhecido como "Chris Moneymaker". Há torneios que pagam hoje milhares de dólares. Tentador não?
Os vídeos e tutoriais treinam aqueles(as) que desejam ser bons jogadores(as). Ensinam regras, truques, magias, blefes, e o puta que pariu... para incentivar Eu-(você)-nós a tentarmos um dia ser profissionais, ou pelo menos, arriscar jogar no PokerStars com dinheiro real.
É um negócio lucrativo de fato, e acredito sim ser possível que uma pessoas com extrema dedicação e TEMPO transforme-se em profissional. Até aí tudo bem.
O problema é quando o TEMPO passa a ser mal administrado e o poker ganha mais espaço do que deveria. Heis o mal do vício. Você quer muito ganhar, e vez ou outra ganha. Essa sensação de ganhar, mesmo que um dinheiro de mentirinha, é muito doce e prazerosa. Pena que dura pouco. Tão breve quanto um "fold rápido" no Zoom do PokerStars. Os dias vão passando e o projeto de jogador(a) vai ficando cada dia melhor com a experiência. Então entra o pensamento: "se eu parar agora, perco tudo o que investi. Se continuar me dedicando chego perto de ficar bom". E aí? O que fazer?
Deveras difícil essa decisão. Heis a minha. Tentarei ficar sem poker nessa semana que entra. Na próxima semana escrevo como foi. Vou parar de forma radical. De uma vez só. Espero que eu sobreviva. O primeiro passo será desinstalar o PokerStars do meu computador, bicho... isso dói como gilete na carne. Mas lá vamos nós. Estou me sentindo prejudicado pois ando sem TEMPO para tarefas por hora mais importantes. Se eu resistir a esse vício, quem sabe daqui há alguns anos eu retome a prática. Assim que eu tiver mais TEMPO para praticá-lo. Aos que estão nesse mundo, desejo a todos GOOD LOOK!
Ps.: A virtude do título, penso eu, talvez seja a TEMPERANÇA que, segundo os cristãos, "modera a atração dos prazeres, assegura o domínio da vontade sobre os instintos e proporciona o equilíbrio no uso dos bens criados".
terça-feira, 25 de outubro de 2011
segunda-feira, 25 de julho de 2011
A Geografia dos Místicos e dos Doutores
Os místicos falam a Deus. Os doutores falam sobre Deus.
Os místicos contam estórias e os doutores ensinam doutrinas.
Os místicos vão para o mar alto. Os doutores ficam no porto seguro.
Os místicos desafiam as ondas perigosas. Os doutores querem livrar-se delas.
Os místicos pedem coragem para enfrentá-las.
Os doutores pedem a continuidade do mar tranquilo.
(Boff, L.)
quarta-feira, 13 de julho de 2011
NÃO ENTRE EM PÂNICO!
... há um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante, cujas formas de vida, descendentes de pri-matas, são tão extraordinariamente primitivas que ainda acham que relógios digitais são uma grande ideia.
Este planeta tem - ou melhor, tinha - o seguinte problema: a maioria de seus habitantes estava quase sempre infeliz. Foram sugeridas muitas soluções para esse problema, mas a maior parte delas dizia respeito basicamente à movimentação de pequenos pedaços de papel colorido com números impressos, o que é curioso, já que no geral não eram os tais pedaços de papel colorido que se sentiam infelizes.
E assim o problema continuava sem solução. muitas pessoas eram más, e a maioria delas era muito infeliz, mesmo as que tinham relógios digitais.
Um número cada vez maior de pessoas acreditava que havia sido um erro terrível da espécie descer das árvores. Algumas diziam que até mesmo subir na árvores tinha sido uma péssima ideia, e que ninguém jamais deveria ter saído do mar.
E, então, uma quinta-feira, quase dois mil anos depois que um homem foi pregado num pedaço de madeira por ter dito que seria ótimo se as pessoas fossem legais umas com as outras para variar, uma garota, sozinha numa pequena lanchonete em Rickmansworth, de repente compreendeu o que tinha dado errado todo esse tempo e finalmente descobriu como o mundo poderia se tornar um lugar bom e feliz. Desta vez estava tudo certo, ia funcionar, e ninguém teria que ser pregado em coisa nenhuma.
Infelizmente, porém, antes que ela pudesse telefonar para alguém e contar sua descoberta, aconteceu uma catástrofe terrível e idiota, e a ideia perdeu-se para todo o sempre.
(O guia do mochileiro das galáxias, Douglas Adams)
segunda-feira, 13 de junho de 2011
SONHO 15
Todos da casa estavam na sala, diante do televisor. Ao lado do aparelho, sentado em uma cadeira, de frente para as pessoas, estava eu. Ao que parece, podiam ver-me, se quisessem. Os olhares, no entanto, centravam-se no filme. Dali os via de uma maneira singular. Uma coreografia de olhares, expressões que se alternavam entre o riso leve e um ar de ligeira apreensão, entre a passividade e a euforia.
O tempo passava; não o transcorrer de um filme, mas de uma vida. E todos permaneciam ali. A VIDA ERA UM ESPETÁCULO DO QUAL EU SÓ PARTICIPAVA COMO ESPECTADOR; UM ESPECTADOR DE ESPECTADORES.
Levanto-me - já muito tempo passara -, sento-me no sofá, ao lado dos presentes, que não esboçam reação. TV ligado, todos olhando, eu olhando, mas não vejo o filme. Ouço a trilha musical, não as vozes.
A vida era um espetáculo carente de vozes. A despeito do espaço reduzido, a sala estava repleta; todos os familiares e alguns amigos. Eu não via o filme, via as pessoas, mas não sentia suas presenças.
A vida era um espetáculo imaterial. Um desconhecido entra na sala, olha para mim, ninguém desvia o olhar. Com um gesto, pede licença para sentar. Com a cabeça, concordo. Empurra-me um papel dobrado - nada há escrito -, oferece-me um como d'água, levanta-se e vai embora.
Sonhador: Professor universitário, 38 anos, solteiro.
In: GUIMARÃES, R. B. (org) Memória e imaginário urbano: geografia de Morpheus. Presidente Prudente: Azimute, 2006.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
“Não importa o que fizeram de ti. Importa o que você faz do que fizeram de ti.” (Sartre)
Alguns pensadores afirmam: as estruturas nos prendem. Somos escravos do sistema. No entanto, Sartre nos dá uma luz para um pensar diferente. Por mais que estejamos presos – até certo ponto – às grades do sistema, ainda assim, a última palavra é a nossa. Por mais que as estruturas nos moldem de acordo com suas necessidades, ainda assim, a responsabilidade de “ser ou não ser” está em nossas mãos. Reflito o pensar de Sartre – “não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" – talvez, pudéssemos tencionar o raciocínio: não importa em que classe social você nasceu, ou o que você aprendeu ou deixou de aprender na escola, não interessa se você está inserido no meio de marxistas ou anarquistas. Você é você? Ou você é o que fizeram você ser? “Não importa o que fizeram de ti. Importa o que você faz, do que fizeram de ti.” O ser humano é um ser pensante, simbólico, por isso livre. A razão é o que comanda nossa vida, é o deus, é a força que nos move. A ordem da vida não se apreende através dos sentidos, somente através de nosso juízo. Assim, “o juízo é o poder central do homem, (...) pois é a única coisa em que o homem depende inteiramente de si mesmo; o juízo é livre, autônomo e auto-suficiente” (E. Cassirer).
sexta-feira, 18 de março de 2011
Crente
Não consigo, não crer. Faço uma força, busco fatos, vejo o invisível. Creio no que vejo, mesmo não vendo nada. Que força é essa que me consome interiormente, aperta minhas tripas, faz meus olhos arderem. Olho o nada, vejo o invisível, até nisso a força reside. Como negar o que “não vejo”. Se não vejo, não creio. Mas mesmo não vendo, pois sendo invisível continua nascendo. Não vejo, mas simplesmente sei, está ali: em mim. Eu sinto.
Por isso não vejo, como posso ver o que não está à frente de meus olhos, mas atrás deles. Vejo melhor quando estou de olhos fechados. Deixa consumir, deixa estar, sente e vê, deixa Ser. Mas não veja como deseja ver, veja como Ele se mostra. O invisível é real, é mistério, é força que se alimenta da matéria-prima mais preciosa do universo, a FÉ.
Tenha FÉ e alcançará a visão do que guarda em seu interior. Coisas que nem imagina possuir se revelarão. Amigo, não tenha medo, conhece a ti mesmo.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Você é o que você pensa!
Compartilhei com vocês pequenas ideias sobre universo, seus mistérios e mitos, tentei mostrar a dificuldade que temos em compreender aquilo que é maior do que nós. Quando há essa compreensão, passamos para o desafio de explicar através da linguagem a complexidade do que foi entendido. O mysterium fascinosum persiste. Refletindo sobre isso, brinquei com meus pensamentos: talvez haja dentro de nós mesmos um universo a ser desvendado. Algo tão fascinante quanto o espaço das estrelas e galáxias, do espaço que está fora de nós, quiçá até mais sublime, pois estando dentro de nós, não existem leis físicas para ordená-lo.
As ferramentas necessárias para expedições a esse possível universo interior estão ao nosso alcance. Curiosidade e paciência, talvez esses sejam os primeiros passos. Cada pessoa é um universo. Cada um de nós é possuído por uma força geradora de beleza e criatividade. Somos tão complexos e obscuros a nós mesmos, que não é a toa que o auge da sabedoria humana reside em assumir nossa ignorância sobre o que somos.
O ser humano, bicho nascido dos símbolos, animal cultural inventado pela força da Imaginação. Artes, ciência, religião, mitos... toda essa riqueza de invenções dentro de nós, nascendo em nosso universo interior. Tão grandioso é o processo criativo que esse universo tende a explodir, extrapolar as fronteiras de nossas ideias, através do big-bang da ação humana passamos a dar forma ao espaço exterior. Sonhamos novos universos, criamos deuses, contamos mitos. Nossa vida, nossas relações, o que somos ou sonhamos ser... é a construção aqui fora do que cultivamos lá dentro, em nosso universo interior.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Universo, religião, ciência e Alice
"Quando refletimos sobre a origem do Universo, imediatamente percebemos que devemos nos defrontar com problemas bem fundamentais. Como podemos compreender qual é a origem de “tudo”? Se assumirmos que “algo” criou “tudo”, caímos em uma regressão infinita; quem criou o algo que criou o tudo? Como podemos entender o que existia antes de “tudo” existir? Se dissermos que “nada” existia antes de “tudo”, estamos assumindo a existência de “nada”, o que implicitamente assume a existência de um “tudo” que lhe é contrário. Nada já é muito, como na história de Alice no País das Maravilhas, em que o Rei Vermelho pergunta a Alice: “O que você está vendo?”, e Alice responde: “Nada”. O rei, impressionadíssimo, comenta: "Mas que ótimos olhos você tem!”. Quando tentamos entender o Universo como um todo, somos limitados pela nossa perspectiva “interna”, como um peixe inteligente que tenta descrever o oceano como um todo. Isso é verdade tanto em religião como em ciência."
(A dança do universo, Marcelo Gleiser)
O Universo veio do nada
Os Índios Maori da Nova Zelândia, contam assim:
Do nada a procriação,
Do nada o crescimento,
Do nada a abundância,
O poder de aumentar o sopro vital;
Ele organizou o espaço vazio,
E produziu a atmosfera acima,
A atmosfera que flutua sobre a Terra;
O grande firma mento organizou a madrugada,
E a Lua apareceu;
A atmosfera acima organizou o calor,
E o Sol apareceu:
Eles foram jogados para cima,
Para serem os olhos principais do Céu:
E então o firmamento transformou-se em luz,
A madrugada, o nascer do dia, o meio-dia.
O brilho do dia vindo dos céus.
Mito Hindu - II
Encontra-se no Chandogya Upanisad, m, 19:
No início esse [Universo] não existia. De repente, ele passou a existir, transformando-se em um ovo. Depois de um ano incubando, o ovo chocou. Uma metade da casca era de prata, a outra, de ouro. A metade de prata transformou-se na Terra; a de ouro, no Firmamento. A membrana da clara transformou-se nas montanhas; a membrana mais fina, em torno da gema, em nuvens e neblina. As veias viraram rios; o fluido que pulsava nas veias, oceano. E então nasceu Aditya, o Sol. Gritos de saudação foram ouvidos, partindo de tudo que vivia e de todos os objetos do desejo. E desde então, a cada nascer do Sol, juntamente com o ressurgimento de tudo que vive e de todos os objetos do desejo, gritos de saudação são novamente ouvidos.
(Ovo Cósmico - Vladimir Kush)
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
A criação do mundo não terminou até que P’an Ku morreu. Somente sua morte pôde aperfeiçoar o Universo: de seu crânio surgiu a abóbada do firmamento, e de sua pele a terra que cobre os campos; de seus ossos vieram as pedras, de seu sangue, os rios e os oceanos; de seu cabelo veio toda a vegetação. Sua respiração se transformou em vento, sua voz, em trovão; seu olho direito se transformou na Lua, seu olho esquerdo, no Sol. De sua saliva e suor veio a chuva. E dos vermes que cobriam seu corpo surgiu a humanidade.
(Uma das várias versões do mito chinês de Pan Ku)
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Mito Hindu
Há muito tempo, havia três grandes deuses, filhos do Grande Deus Desconhecido, assim chamado porque - segundo narram os sábios - nenhum homem podia Dele se aproximar, a menos que tivesse o coração puro e limpo e merecesse, por suas virtudes, a graça de Sua visão. Estas três divindades eram, como seu próprio Pai, imaculadas. Brahma, o primogênito, teve por tarefa a criação de todo o universo; o segundo, Vishnu, dedicou-se á conservação e cuidado da obra de seu irmão; enquanto que o mais difícil de todos os trabalhos, coube a Shiva. Enquanto Brahma cria o cosmos, Vishnu o protege, e Shiva ensina ao coração de todas as coisas, o meio pelo qual atingir a divina meta.
"Na noite do Brama (a essência de todas as coisas, a realidade absoluta, infinita e incompreensível), a Natureza é inerte e não pode dançar até que Shiva assim o deseje. O deus se alça de seu estupor e, através de sua dança, envia ondas pulsando com o som do despertar, e a matéria também dança, aparecendo gloriosamente à sua volta. Dançando, Ele sustenta seus infinitos fenômenos, e, quando o tempo se esgota, ainda dançando, Ele destrói todas as formas e nomes por meio do fogo e se põe de novo a descansar’’
Assinar:
Postagens (Atom)

















